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Participei de um artigo internacional, que acabou de sair,  mostrando como a gordofobia estrutural opera e está naturalizada na formação de profissionais de saúde no Brasil

Participei desse artigo na discussão sobre como os profissionais de saúde reproduzem e naturalizam a gordofobia estrutural em suas formações.

Essa discussão é muito importante para que a gente pense que os estudos críticos sobre gordofobia precisam — e é urgente — estar nas formações, nos currículos e dentro das universidades.

O artigo foi um convite do professor Antonio Augusto Ferreira Carioca para pensar junto com suas alunas, que pesquisam gordofobia em saúde em Fortaleza, e acaba de ser publicado em uma revista científica internacional.

Mas o mais importante não é só onde esse artigo foi publicado.
É o que ele revela sobre a formação de profissionais de saúde no Brasil — e como essa formação impacta diretamente o cuidado oferecido a pessoas gordas.

A pesquisa olha para dados, discursos e práticas.
E levanta uma questão incômoda: muitas violências que corpos gordos enfrentam na saúde não começam no atendimento. Começam antes, na formação.

Esse debate ultrapassou fronteiras e também virou tema de uma matéria internacional, que discute os desafios de enfrentar a gordofobia estrutural no cuidado em saúde no Brasil.

Se você quiser acessar o artigo científico completo, ele está disponível neste link:
🔗 https://link.springer.com/article/10.1186/s12913-026-14022-2

E, se quiser ler a matéria internacional que apresenta e contextualiza essa pesquisa, o texto está aqui:
🔗 https://scienmag.com/challenging-fatphobia-in-brazilian-health-care-training/

Este texto aqui no blog é um convite à reflexão e também à leitura mais aprofundada.

Porque nomear a gordofobia que estrutura a saúde é um passo fundamental para começar a desmontá-la.

Então, minha gente: vamos ler, compartilhar e espalhar esse debate.

Que esse trabalho chegue em muitas pessoas, atravesse formações, provoque conversas e ajude a construir práticas de cuidado mais dignas, mais humanas e mais justas para todos os corpos.

Leiam, circulem, enviem para quem precisa.

Quando a saúde se transforma em violência: corpos gordos, cuidado e justiça social

O que estamos entendendo por saúde quando corpos gordos são automaticamente tratados como doentes? Essa é a provocação central do artigo Corpas Gordas: Beleza e saúde, a patologização é violência. O que estamos entendendo por saúde?, que propõe uma análise crítica da relação entre saúde e “obesidade” no campo biomédico.

O texto denuncia como a patologização dos corpos gordos sustenta preconceitos, exclusões e práticas violentas nos serviços de saúde. A pesquisa evidencia os impactos da gordofobia na vida das pessoas gordas, especialmente de mulheres negras e periféricas, que enfrentam atendimentos desumanizados, ausência de equipamentos adequados e a constante violação de seus direitos. Métricas como o IMC são questionadas por reduzirem corpos complexos a números, ignorando histórias, contextos e subjetividades.

Ao situar a saúde dentro de uma lógica capitalista neoliberal, o artigo revela como o lucro e a indústria do emagrecimento frequentemente se sobrepõem ao cuidado e ao bem-estar humano. Em contraponto, propõe a integração dos estudos transdisciplinares do corpo gordo, dos feminismos e de epistemologias críticas, abrindo espaço para narrativas que reconheçam outras formas legítimas de existência e de prática em saúde.

📢 Divulgação internacional
O artigo foi publicado na revista científica Corpografías: estudios críticos de y desde los cuerpos, sediada em Bogotá, Colômbia. A revista é uma publicação pela Universidad Distrital Francisco José de Caldas, fortalecendo a circulação internacional de pesquisas críticas, decoloniais e comprometidas com a transformação social.

Repensar a saúde é, também, repensar quem tem direito ao cuidado, à escuta e à dignidade. Esse artigo é um convite a esse debate urgente.

https://revistas.udistrital.edu.co/index.php/CORPO/article/view/23505

O que transborda da margem, por Laís Caetano

Começo afirmando: o Laboratório não era o que eu imaginava…
Ainda bem.

Quando me vi imersa na vida acadêmica, acreditei encontrar, no laboratório, uma chance — talvez até uma exigência — de moldar minha escrita aos contornos desse mundo tão cheio de formas, prazos e normas. Um mundo que me cobra, constantemente, uma linguagem que não me veste inteira. Pensei que o Laboratório me ensinaria a caber.

Mas ele fez o contrário.
Ainda bem.

O que encontrei ali foi espaço — para escuta, para memória, para silêncio e presença. Encontrei, antes de tudo, a mim. E, no reflexo do outro, reconheci fragmentos da minha própria história. Foi então que provei, com surpresa, o gosto agridoce de me escrever. De olhar para dentro com coragem e transformar em palavra o que tantas vezes preferi calar.

Difícil, porque dói.
Necessário, porque liberta.

A cada linha, fui compreendendo que minha trajetória — com todas as suas rupturas, pausas, voltas e recomeços — podia ser matéria de escrita. Não como produto, mas como pulsação. E assim nasceu minha escrita afectiva: urgente, indócil, cheia de vida. Tecida por memórias miúdas, por ecos de outras vozes, por dores que se atravessam e se encontram.

Histórias que, ora se assemelham às de es colegas, ora caminham em rota própria — mas que, no Laboratório, foram acolhidas, validadas, transformadas em linguagem e afeto.

Ali, compreendi que não era preciso me enquadrar, mas escutar o que em mim transborda da margem.
E escrever.

Eu não nasci negra, me tornei. por Poliana Afonso

É muito curioso a minha percepção, na realidade conscientização de que eu sou uma mulher negra. Demorei anos para entender isso.  A minha vida toda eu era considerada morena do cabelo bom. Até que um dia minha prima que é uma mulher branca me disse :você é negra de pele clara” neste dia em diante tomei consciência de que sofri várias vezes racismo até mesmo dentro da universidade. E que até a cor da pele impacta na hora de entrevista de emprego. Antes disso não me enxergava como mulher negra!! Hoje eu tenho orgulho de ser uma Mulher negra!!!! E vou sim ocupar o meu espaço no mundo!!!! Um espaço que já foi na maioria das vezes negado para nós pessoas negras. Sobre me tornar negra já verbalizar muitas vezes em grupos de amigos, porém é a primeira vez que materializei em forma de palavras escritas por causa do Laboratório escritas afetivas que me proporcionou está oportunidade!! Aprendi com a Malu que podemos sim escrever na primeira pessoa a nossa história, sermos protagonista dela e que também ser usada no mundo acadêmico e que o mais importante não é ortografia, normas gramaticais e sim a criatividade, essência e argumento do texto. Quando a Malu propôs a última atividade, que era escrever este texto, pensei o que vou escrever!! Aí lembrei da fala da Malu ‘Escuta sua corpa’ E foi o que eu fiz!!  

Hoje entendo que torna-se negra é um processo e que ainda tenho muito o que aprender sobre a história do meu povo e sobre o feminismo negro!!

Me Escutar Foi o Começo de Me Escrever, por Auã Azevedo

Participei dessa monitoria porque achava minha escrita muito travada, e quando estive na primeira aula, vi que a trava estava no medo do julgamento do outre, por isso não conseguia apresentar meus textos, tampouco publicá-los por vergonha, medo e por causa de pensamentos sabotadores, mas o que me surpreendeu foi a abordagem de Malu, por que ela pediu para as pessoas envolvidas contarem as suas histórias.

Ter essa experiência de validar a minha narrativa com meu corpo gorde, de início foi um susto, porquê aprendi a não valorizar quem fui e não olhar à minha trajetória, porém vi de fato como é a abordagem e me acalantou pelo acolhimento que recebi de todas as pessoas presentes.

Não é fácil, muitas vezes, validar minhas dores, me perdoar e dichavar meus sentimentos, mas aprendi através desse acolhimento, também, que quando há uma escuta afetiva e um local seguro, torna-se mais digestivo essa prática, já que na minha realidade, comecei a entender que não sou errado por sentir e que preciso me respeitar a ponto de saber que o que falo e escrevo importa e me movimenta.

Dedico essa texto às pessoas envolvides e que por causa de vocês, também, me sinto mais útil e importante. Obrigade.

Eu não sei escrever. por Loraine V. Gaino.

Eu comecei o Laboratório de Escritas Afetivas com esse pensamento. E fui pra esse laboratório muito desconfiada e resistente. Algo meu queria se haver com meu próprio processo de escrita depois de 10 anos de tentativas frustradas de me tornar uma escritora… ACADÊMICA. Foram cerca de 5 treinamentos específicos, além de um curso de seis meses, pra tentar dar conta de fazer algo que eu achava que eu precisava: escrever bem um artigo científico.

O resultado de tantas empreitadas acabou sendo só um sofrimento intenso: eu escrevia nesse estilo, mas sempre muito porcamente. O texto do meu mestrado foi totalmente revisado pela minha orientadora, o do doutorado, por um colega, professor de Letras, e ambos, por uma empresa revisora de ortografia e escrita acadêmica. Os artigos científicos sempre foram escritos em conjunto e eu contribuía de várias outras formas – analisando dados, fichamentos, organizando para o processo de publicação, etc… mas escrevendo, muito pouco.

Os concursos que prestei após o doutorado também confirmaram o que minha ex-orientadora de mestrado e doutorado repetia todo encontro de orientação: você não sabe escrever. Tive notas bem medianas nessas avaliações de texto.

Um dos resultados disso foram anos fugindo da escrita. Eu até escrevo algumas coisinhas pífias pra redes sociais, impulsionada pela necessidade de produzir conteúdo para minhas páginas profissionais, mas nada com muito impacto e profundidade. E até mesmo, num movimento irônico da vida, foi eu fazer um pós-doutorado num programa de um curso de LETRAS. Mas mesmo assim, escapei da produção de escrita. Fiz várias atividades no pós-doutorado: participei de Grupo de Estudos, dei aulas, organizei eventos, apresentei em um congresso… mas, o máximo que produzi de escrita foi um resumo pra esse congresso. Eu resistia e fugia de escrever. “Você não sabe escrever” – ecoava sempre em mim a frase da minha ex-orientadora.

Bom, se eu não sei escrever, como você está me lendo?

É que nessa frase “Eu não sei escrever” falta um advérbio de modo bem especifico… Eu não sei escrever ACADEMICAMENTE.

E essa palavrinha “academicamente” nessa frase foi fundamental pra dar um limite extremamente necessário. Eu não sei escrever para esse lugar ACADÊMICO que demanda um estilo de escrita formal, sintético, objetiva, polido e, principalmente, estéril. Entendi que esse estilo de texto é uma tentativa de emular o que parte das ciências tentam ser: racionais e neutras. O que bem sabemos que não é verdade, mas elas continuam tentando.

Portanto, a escrita científica-acadêmica deve ser impessoal e assujeitada. Assujeitada aqui, pra mim, significa “sem sujeito”, ou seja, sem subjetividade. Não importa quem realiza a pesquisa, não deve transparecer nada daquele que escreve. Sabemos que isso é impossível, a autoria acaba aparecendo de alguma forma. Mas o que quero dizer é que, objetivando esse lugar extremamente racional, objetivo, direto e sintético, há um esforço para o apagamento da subjetividade da pesquisadora. E aqui o Laboratório me trouxe um segundo insight dolorido e necessário: meu corpo resistiu a esse apagamento subjetivo.

Lembrem-se que disse que eu fiz vários cursos para aprender a escrever cientificamente-academicamente. Inclusive, quando tive oportunidade de ser orientadora de Trabalhos de Conclusão de Curso, todes mis alunes tiveram notas máximas nas avaliações ou muito próximo dessas. Afinal, cognitivamente e racionalmente eu tinha e sabia todas as ferramentas para esse estilo de texto. Inclusive, fui muito eficiente na orientação desses trabalhos acadêmicos. Porém, a cognição-racionalidade não era suficiente. Porque não há algo central para a escrita: o corpo.

Essa semana, inclusive, nos meus atendimentos clínicos (sou psicóloga) uma analisanda me trouxe algo incrível. Ela é professora de ensino infantil e seu campo de especialidade é a alfabetização. Ela me contou que nenhuma criança consegue aprender a escrever uma letra se aquilo não tiver sido vivido pelo corpo dela. Explicou-me que, para alfabetizar a criança, essa precisa sentir a letra desenhada no chão, numa massinha, na pele – ela rabisca a letra nas costas da criança, por exemplo. E só depois, de todo esse processo, a criança consegue desenhar a letra.

Portanto, em todos esses 10 anos, meu corpo resistiu a uma escrita estéril e fria. Minha “cabeça”, a parte racional, intelectual, queria que eu o fizesse, mas meu corpo se recusava. As frases, parágrafos acabavam saindo confusos ou, minimamente, medíocres. E por isso eu ouvi tantas críticas…

Para aquelus que não sabem, a facilitadora do Laboratório, Malu Jimenez, é uma baita pesquisadora e, para mim, a maior liderança do ativismo do corpo gordo, aliás, das corpas gordas do Brasil. Portanto, discussões sobre corpo nessa Oficina me movimentaram esse insight: eu precisava escrever com meu corpo, não com meu intelecto.

Enfim, finalmente, eu pude entender que sei sim escrever. E complemento com algo importantíssimo que aprendi com o Laboratório, não apenas digo que SEI SIM ESCREVER, mas principalmente EU POSSO ESCREVER. E vocês estão acompanhando esse momento de virada de chave comigo.

Eu não quero escrever para a esterilidade acadêmica, esse muito higiênico, frio, calculista e moralista. Pra mim me interessam corpas e escritas dissidentes, na qual há sujeitas, sujeites, sujeitos cheio de subjetividade, afetos e vida. Escritoras e leitoras que existem, pensam e, principalmente, sentem. Sentem com todas a pele, órgãos, entranhas, tripas. Se afetam. Eu não quero essa escrita limpinha. Quero a bagunça do corpo que brinca e o caos da subjetividade. De toda vida pulsante. Que se lasquem as regras ortográficas e a normas da ABNT.

Eu existo e sempre existi. Com todo o tamanhão de uma mulher alta e gorda. Uma corpa que resistiu a escrever de forma acadêmica e que sempre resistiu em ser pequeno. Uma corpa que eu tentei emagrecer até meus 30 anos. Então, talvez, eu também esteja entendendo que minha corpa, eu e minha escrita tem direito de existir e ser. Exatamente do jeito que é.

Portanto, quero ser mais uma corpa, voz e letras que ecoa junto com a vida que há muito além dos muros das instituições acadêmicas. Uma pessoa que escreve para a vida.

Eu sei escrever.

Lute como uma gorda é um blog criado pela Profa. Dra. Malu Jimenez, ativista e pesquisadora do corpo gordo. Aqui reunimos e potencializamos conteúdos sobre este tema, a fim de construir, conectar e formar pessoas que se interessem pela causa.

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Este livro é resultado de sua pesquisa que teve origem em sua tese de doutorado, a qual propõe análises teóricas para investigar a estigmatização institucionalizada sob a qual os corpos gordos são colocados. Lute como uma gorda está disponível para venda e comprando por aqui você recebe uma dedicatória especial da autora